Ciência e pseudociência

 

Ciência e pseudociência

Imre Lakatos

O respeito do homem pelo conhecimento é uma das suas características mais peculiares. A palavra latina para conhecimento éscientia, e ciência tornou-se a designação da mais respeitável forma de conhecimento. Mas o que distingue o conhecimento da superstição, ideologia ou pseudociência? A Igreja Católica excomungou os copernicanos, o Partido Comunista perseguiu os mendelianos, com o fundamento de que as suas doutrinas eram pseudocientíficas. A demarcação entre ciência e pseudociência não é um mero problema de filosofia de salão: é de vital relevância social e política.

Muitos filósofos tentaram solucionar o problema da demarcação nos seguintes termos: uma afirmação constitui conhecimento se um número suficiente de pessoas acreditar nele com suficiente firmeza. Mas a história do pensamento mostra-nos que muitas pessoas aderiram totalmente a crenças absurdas. Se a força das crenças fosse o traço distintivo do conhecimento, teríamos de considerar como conhecimento algumas histórias de demónios, anjos, forças do mal, céu e inferno. Por outro lado, os cientistas são muito cépticos, mesmo em relação às suas melhores teorias. A teoria de Newton é a mais poderosa que a ciência jamais produziu, mas o próprio Newton nunca acreditou que os corpos se atraem à distância. Portanto, não é o grau de adesão às crenças que as transforma em conhecimento. De facto, o traço distintivo do comportamento científico é um certo cepticismo mesmo em relação às teorias mais acalentadas. A adesão cega a uma teoria não é uma virtude intelectual — é um crime intelectual.

Assim, uma afirmação pode ser pseudocientífica mesmo que seja eminentemente "plausível" e todos acreditem nele, e pode ser de grande valor científico mesmo que seja inverosímil e ninguém acredite nele. Uma teoria pode até ter um valor científico extremo mesmo que ninguém a compreenda ou, menos ainda, acredite nela.

O valor cognitivo de uma teoria nada tem a ver com a sua influência sobre a mente das pessoas. A crença, a adesão e a compreensão são estados da mente humana. Mas o valor científico e objectivo de uma teoria é independente da mente humana que a concebe ou compreende. O seu valor científico depende apenas do suporte objectivo que essas conjecturas encontrem nos factos. Como Hume disse:

Se pegarmos num qualquer volume de teologia ou metafísica escolástica, por exemplo, perguntemos: Contém algum raciocínio abstracto acerca da quantidade ou do número? Não. Contém algum raciocínio experimental relativo a questão de facto e existência? Não. Lançai-o às chamas, porque só pode conter sofisma e ilusão.

Mas o que é o raciocínio "experimental"? Se passarmos os olhos pela vasta bibliografia do século XVII sobre feitiçaria, encontramo-la repleta de relatos de observações cuidadosas e testemunhos prestados sob juramento — até mesmo de experiências. Glanvill, o filósofo oficial da Royal Society dos primeiros tempos, considerava a feitiçaria o paradigma do raciocínio experimental. Temos pois de definir raciocínio experimental, antes de começarmos a queimar os livros a que Hume se refere.

No raciocínio científico, as teorias são confrontadas com os factos e uma das condições centrais do raciocínio científico é que as teorias devem ser sustentadas pelos factos. Ora, como podem os factos efectivamente sustentar as teorias?

Várias respostas diferentes têm sido apresentadas. O próprio Newton pensava comprovar as suas leis a partir dos factos. Orgulhava-se de não formular meras hipóteses; publicava apenas teorias comprovadas pelos factos. Nomeadamente, garantia deduzir as suas leis dos "fenómenos" fornecidos por Kepler. Mas o seu alarde era despropositado, uma vez que, de acordo com Kepler, os planetas se movem descrevendo elipses; de acordo com a teoria de Newton, porém, os planetas só se moveriam em elipse se não interferissem entre si no seu movimento. Mas interferem. Foi por esse motivo que Newton teve de criar uma teoria da perturbação, da qual se conclui que nenhum planeta se move em elipse.

Hoje, pode demonstrar-se facilmente que não se pode derivar uma lei da natureza de um qualquer número finito de factos; mas continuamos a tomar conhecimento de teorias científicas comprovadas a partir de factos. Porquê esta resistência obstinada à lógica elementar?

Há uma explicação plausível. Os cientistas querem tornar as suas teorias respeitáveis, merecedoras do título de "ciência", ou seja conhecimento genuíno. Ora, o conhecimento mais relevante no século XVII, quando nasceu a ciência, dizia respeito a Deus, ao Diabo, ao céu e ao inferno. Se alguém interpretasse mal as conjecturas sobre assuntos de teologia, a consequência do erro era a condenação eterna. O conhecimento teológico não pode ser falível: tem de estar para lá da dúvida. Ora, o iluminismo achava que éramos falíveis e ignorantes sobre questões de natureza teológica. Não há teologia científica e, portanto, não há conhecimento teológico. Só pode haver conhecimento sobre a Natureza, mas esta nova forma de conhecimento tinha de ser ajuizada pelos padrões adoptados directamente da teologia: tinha de ser comprovada sem margem para a dúvida. A ciência tinha de alcançar a certeza plena que havia escapado à teologia. A um cientista digno desse nome não era permitido adivinhar: tinha de comprovar cada afirmação recorrendo aos factos. Era este o critério de honestidade científica. As teorias que não fossem comprovadas pelos factos eram consideradas pseudociência pecaminosa, heresia na comunidade científica.

Só a queda da teoria de Newton neste século levou os cientistas a compreender que os seus padrões de honestidade tinham sido utópicos. Antes de Einstein, a maior parte dos cientistas pensava que Newton tinha decifrado as leis irrevogáveis de Deus, comprovando-as a partir dos factos. Ampere, nos princípios do século XIX, sentiu-se obrigado a intitular assim o seu livro acerca das suas especulações sobre electromagnetismo: A Teoria Matemática dos Fenómenos Electrodinâmicos Unicamente Deduzida da Experiência. Contudo, no final do volume, confessa casualmente que algumas das experiências nunca foram realizadas e até mesmo que os instrumentos necessários não chegaram a ser construídos.

Se todas as teorias científicas são igualmente não comprováveis, o que distingue o conhecimento científico da ignorância, a ciência da pseudociência?

Uma resposta para esta pergunta foi fornecida no século XX pelos "lógicos indutivos". A lógica indutiva procurou definir as probabilidades de diferentes teorias relativamente à totalidade dos elementos probatórios. Se a probabilidade matemática de uma teoria for elevada, esta considera-se científica; se for baixa ou mesmo nula, a teoria não é científica. Assim, o traço distintivo da honestidade científica seria jamais enunciar algo que não fosse pelo menos altamente provável. O probabilismo tem uma faceta atraente: em lugar de fornecer uma distinção, preto no branco, entre ciência e pseudociência, fornece uma escala contínua, desde teorias pobres, com uma baixa probabilidade, até boas teorias, com um elevado grau de probabilidade. Mas, em 1934, Karl Popper, um dos mais influentes filósofos da nossa época, argumentou que a probabilidade matemática de qualquer teoria, científica ou pseudocientífica, seja qual for a quantidade de elementos probatórios, é zero. Se Popper estiver certo, as teorias científicas não só são igualmente não comprováveis como também são igualmente improváveis. Um novo critério de demarcação passou a ser necessário e Popper apresentou um bastante invulgar. Uma teoria pode ser científica mesmo que não haja os mínimos dados a seu favor, e pode ser pseudocientífica ainda que todos os dados disponíveis estejam a seu favor. Isto é, o carácter científico ou não científico de uma teoria pode ser determinado independentemente dos factos. Uma teoria é "científica" se à partida se especificar uma experiência (ou observação) crucial que a possa falsificar, e é pseudocientífica se houver recusa em especificar esse "falsificador potencial". Contudo, neste caso, não fazemos a demarcação entre teorias científicas e pseudocientíficas, mas antes entre método científico e não científico. O marxismo, para um popperiano, é científico se os marxistas estiverem preparados para especificar factos que, se observados, os façam abandonar o marxismo. Se eles se recusarem a fazê-lo, o marxismo torna-se uma pseudociência. É sempre interessante perguntar a um marxista que acontecimento concebível o faria abandonar o marxismo. Se está comprometido com o marxismo, considera forçosamente imoral a especificação de um estado de coisas que o possa falsificar. Deste modo, uma proposição pode cristalizar-se em dogma pseudocientífico ou tornar-se conhecimento genuíno, tudo dependendo do facto de estarmos preparados para enunciar condições observáveis que a poderiam refutar.

Será, então, o critério de falsificabilidade de Popper a solução para o problema da demarcação entre ciência e pseudociência? Não, visto o critério de Popper ignorar a notável obstinação das teorias científicas. Os cientistas não são muito influenciáveis. Não abandonam uma teoria apenas porque os factos a contradizem. Normalmente, inventam qualquer hipótese auxiliar para explicar o que chamam de mera anomalia ou, se não conseguem explicar a anomalia, ignoram-na e dirigem a sua atenção para outros problemas. É de notar que os cientistas falam de anomalias, casos rebeldes, e não de refutações. É claro que a história da ciência apresenta múltiplos relatos de teorias alegadamente destruídas por experiências cruciais. Mas esses relatos são forjados muito depois de as teorias terem sido abandonadas. Se Popper tivesse alguma vez perguntado a um cientista newtoniano em que condições experimentais ele abandonaria a teoria de Newton, alguns cientistas newtonianos teriam ficado tão desorientados como é o caso de alguns marxistas.

Qual é, então, o traço distintivo da ciência? Teremos de capitular e concordar que uma revolução científica é uma mudança irracional de adesão, que é uma conversão religiosa? Tom Kuhn, um distinto filósofo da ciência americano, chegou a esta conclusão depois de descobrir a ingenuidade do falsificacionismo de Popper. Mas se Kuhn tem razão, então não há demarcação explícita entre ciência e pseudociência, não há distinção entre progresso científico e decadência intelectual, não há um padrão objectivo de honestidade. Mas que critérios pode ele então apresentar para demarcar o progresso científico da degenerescência intelectual?

Nestes últimos anos, tenho vindo a advogar a metodologia dos programas de investigação científica, que resolve alguns dos problemas que, tanto Popper como Kuhn, não conseguiram solucionar.

Em primeiro lugar, defendo que a unidade descritiva típica das grandes realizações científicas não é uma hipótese isolada, mas antes um programa de investigação. A ciência não é simplesmente ensaio e erro, uma série de conjecturas e refutações. A afirmação "Todos os cisnes são brancos" pode ser falsificada pela descoberta de um cisne preto. Mas a trivialidade deste ensaio e erro não merece o estatuto de ciência. A ciência newtoniana, por exemplo, não é simplesmente um conjunto de quatro conjecturas — as três leis da mecânica e a lei da gravitação. Estas quatro leis constituem apenas o "núcleo" do programa newtoniano. Mas este núcleo é tenazmente defendido da refutação por uma vasta "cintura protectora" de hipóteses auxiliares. E, mais importante ainda, o programa de investigação tem também uma "heurística", isto é, um poderoso mecanismo para solucionar problemas que, com a ajuda de técnicas matemáticas sofisticadas, digere anomalias e até as transforma em comprovações. Por exemplo, se um planeta não se move exactamente como deveria, o cientista newtoniano verifica as suas conjecturas relativas à refracção atmosférica, à propagação da luz em tempestades magnéticas, bem como centenas de outras conjecturas que pertencem ao programa. Pode mesmo inventar um planeta até então desconhecido e calcular a sua posição, massa e velocidade, a fim de explicar a anomalia.

Ora, a teoria da gravitação de Newton, a teoria da relatividade de Einstein, a mecânica quântica, o marxismo, o freudismo, são programas de investigação, cada qual com um núcleo característico tenazmente defendido, uma cintura protectora mais flexível e cada qual com o seu elaborado mecanismo de solucionar problemas. Todos eles, em qualquer estádio do seu desenvolvimento, apresentam problemas não resolvidos e anomalias não digeridas. Todas as teorias, neste sentido, nasceram refutadas e morrem refutadas. Mas serão todas igualmente boas? Até agora, tenho vindo a descrever os programas de investigação científica. Mas como distinguir um programa científico de outro pseudocientífico ou degenerativo?

Contrariamente a Popper, a diferença não pode consistir no facto de uns terem já sido refutados e outros não. Quando Newton publicou os seus Principia, era do conhecimento geral que nem sequer o movimento da Lua ele conseguia explicar correctamente; de facto, o movimento lunar refutava Newton. Kaufmann, um físico eminente, refutou a teoria da relatividade de Einstein no próprio ano em que foi publicada. Mas todos os programas de investigação que admiro têm uma característica em comum. Todos prevêem factos novos, factos que os programas anteriores ou rivais não tinham sequer idealizado ou tinham até contradito. Em 1686, quando Newton publicou a sua teoria da gravitação, havia, por exemplo, duas teorias generalizadas relativamente a cometas. A mais popular considerava os cometas um sinal de um Deus irado, anunciando o seu castigo e a catástrofe. Uma teoria de Kepler, pouco divulgada, sustentava que os cometas eram corpos celestes que se moviam em linha recta. Ora, de acordo com a teoria newtoniana alguns deles moviam-se descrevendo hipérboles ou parábolas sem retomo; outros moviam-se descrevendo vulgares elipses. Halley, trabalhando no programa de Newton, calculou, a partir da observação de um breve trecho do trajecto de um cometa, que este regressaria volvidos setenta e dois anos, calculou com exactidão quando voltaria a ser avistado num ponto preciso do céu. Isto era inacreditável. Mas decorridos setenta e dois anos, quando Newton e Halley já tinham morrido há muito, o cometa de Halley voltou exactamente como ele tinha previsto. De forma idêntica, os cientistas newtonianos previram a existência e movimento exacto de pequenos planetas que nunca tinham sido observados. Tomemos agora o programa de Einstein. Este programa profetizou, de forma assombrosa, que, se se medir a distância entre duas estrelas durante a noite e se se medir essa distância durante o dia (quando elas são visíveis durante um eclipse do Sol), as duas medições serão diferentes. Nunca ninguém tinha pensado fazer tal observação antes do programa de Einstein. Assim, num programa de investigação progressivo, a teoria conduz à descoberta de factos novos (até então desconhecidos). Nos programas degenerativos, contudo, as teorias são arquitectadas meramente para enquadrar factos conhecidos. Terá o marxismo, por exemplo, previsto alguma vez um facto assombrosamente novo, de forma bem-sucedida? Nunca! Soma algumas profecias célebres que foram mal sucedidas. Previu o empobrecimento total da classe operária. Profetizou que a primeira revolução socialista teria lugar na sociedade industrialmente mais desenvolvida. Profetizou que as sociedades socialistas estariam livres de revoluções. Profetizou que não haverá conflito de interesses entre países socialistas. Assim, as primeiras previsões do marxismo foram ousadas e invulgares, mas falharam. Os marxistas explicaram todos os seus desaires: explicaram a elevação do nível de vida da classe trabalhadora inventando uma teoria do imperialismo; explicaram até por que a primeira revolução socialista ocorreu na Rússia industrialmente atrasada. "Explicaram" Berlim 1953, Budapeste 1956, Praga 1968. "Explicaram" o conflito sino-soviético. Mas as suas hipóteses auxiliares foram todas cozinhadas depois dos acontecimentos, para proteger dos factos a teoria marxista. O programa newtoniano conduziu a factos novos; o marxista não acompanhou os factos e tem vindo a apressar o passo para os alcançar.

Em resumo. O traço distintivo do progresso empírico não é constituído por verificações triviais. Popper tem razão ao afirmar que há milhões delas. O êxito da teoria newtoniana não consiste no facto de as pedras, quando largadas, caírem em direcção à Terra, seja qual for o número de vezes que a operação se repita. Mas as ditas "refutações" não são o traço distintivo do fracasso empírico, como Popper preconizou, uma vez que todos os programas se desenvolvem num oceano permanente de anomalias. O que realmente conta são as previsões dramáticas, inesperadas, fantásticas: basta uma pequena dose delas para inclinar a balança; quando a teoria não acompanha os factos, encontramo-nos face a programas de investigação degenerativos.

Ora, como é que acontecem as revoluções científicas? Se tivermos dois programas de investigação rivais, um deles progressivo e o outro degenerativo, os cientistas tendem a aderir ao programa progressivo. Esta é a base racional das revoluções científicas. Mas apesar de não ocultar os dados não ser uma questão de honestidade intelectual, não é desonesta a atitude de quem se mantém fiel a um programa degenerativo e tenta transformá-lo num programa progressivo.

A metodologia dos programas de investigação científica, em contraste com Popper, não oferece uma racionalidade imediata. É preciso tratar com brandura os programas em embrião: os programas podem levar décadas até darem os primeiros passos e se tornarem empiricamente progressivos. A crítica não é um golpe de misericórdia popperiano, por refutação. A crítica importante é sempre construtiva: não há refutação sem uma teoria melhor. Kuhn está errado ao pensar que as revoluções científicas são mudanças de visão súbitas e irracionais. A história da ciência refuta tanto Popper como Kuhn: uma análise mais aprofundada revela como mitos tanto as experiências cruciais popperianas como as revoluções kuhnianas: o que geralmente acontece é que os programas de investigação progressivos substituem os degenerativos.

O problema da demarcação entre ciência e pseudociência tem também graves implicações para a institucionalização da crítica. A teoria de Copérnico foi banida pela Igreja Católica em 1616, porque era tida como pseudocientífica. Foi retirada do Índex em 1820, porque nessa época a Igreja acreditava que os factos a tinham comprovado e, por isso, ela tornou-se científica. O Comité Central do Partido Comunista Soviético, em 1949, declarou a genética mendeliana pseudocientífica, conduzindo à morte em campos de concentração os seus defensores, como o académico Vavilov: depois do assassínio de Vavilov, a genética mendeliana foi reabilitada; mas o direito do partido a decidir o que é ciência ou é publicável e o que é pseudociência ou é punível manteve se. O novo sistema liberal do Ocidente também exerce o direito de negar a liberdade de expressão em relação ao que considera pseudociência, tal como pudemos verificar no caso do debate relativo às relações entre raça e inteligência. Todos estes juízos se basearam inevitavelmente num qualquer critério de demarcação. É por este motivo que o problema da demarcação entre ciência e pseudociência não é um pseudoproblema de filósofos de salão: tem sérias implicações de ordem ética e política.

Imre Lakatos
Retirado de História da Ciência e suas Reconstruções Racionais, Trad. de Emília Picado Tavares Marinho Mendes, Edições 70, 1998, pp. 11-20.

Texto escrito em 1973 e originalmente divulgado como palestra radiofónica.

TEORIA SOBRE O MÉTODO CIENTÍFICO

Espaço Científico Cultural



TEORIA SOBRE O MÉTODO CIENTÍFICO

I -- INTRODUÇÃO

Alberto Mesquita Filho

Continuação (2a parte)



4. O argumento indutivista.

Uma crítica imparcial, conquanto demolidora, ao indutivismo, é apresentada por Chalmers nos três primeiros capítulos de seu livro [13]. Veremos aqui apenas alguns tópicos interessantes do ponto de vista epistemológico, e/ou necessários para um melhor entendimento da teoria ora sendo apresentada.

Um sumário completo do argumento indutivista da ciência está esquematizado na figura 2, adaptada de Chalmers [14]. Chama a atenção a omissão da dedução de hipóteses: o indutivista admite ser possível partir da observação e chegar a leis apelando exclusivamente ao raciocínio indutivo. O método indutivo baseia-se na crença de que é possível confirmar um enunciado universal (lei) através de um certo número de observações singulares. Via de regra, quando se questiona o indutivista a respeito da omissão da hipótese, ele logo repete uma frase de Newton: Não faço hipóteses. Obviamente este indutivista ingênuo ouviu esta frase, sabe que foi proferida por Newton, mas demonstra não saber a que Newton estava se referindo. A hipótese, a que Newton se refere, não é a mesma que hoje se conceitua nos tratados de metodologia científica ou de estatística. Newton deixou bastante claro, em sua obra, que não fazia, como cientista, especulações ou conjecturas infundadas. No que se refere a hipóteses, no contexto em que o termo é hoje aceito, raríssimos foram os cientistas que, em sua fase produtiva, as levantaram em número tal cuja ordem de grandeza se aproximasse daquela atingida por Newton.



Figura 2 - O argumento indutivista (segundo Chalmers)

O argumento indutivista baseia-se na crença no princípio da indução que, dentre outras formas, pode ser enunciado como: "Se, em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, em futuras verificações o mesmo sucederá." [15] Escolhi esta versão para que fique claro o contraste entre o princípio da indução e a regra científica fundamental explícita na figura 1. Três comentários merecem ser feitos a respeito: 1) Conquanto seja usado como regra metodológica, o princípio da indução não define o número de observações singulares a permitir uma generalização (obtenção de leis). 2) Esta e outras falhas conceituais, inerentes ao argumento indutivista, propiciam interpretações ingênuas ao princípio, conforme veremos abaixo. 3) O princípio, sem perder em generalidade, no que diz respeito às premissas (tem o mesmo campo de atuação que a regra científica fundamental), e para que possa caracterizar-se como metodológico, e não apenas norteador, torna-se mais restritivo que a regra científica fundamental ¾afirma, ao invés de supor.¾ Conseqüentemente, os que abraçam esta ideologia, devem procurar por uma outra definição de ciência que não a apresentada no item 2 e figura 1. As conseqüências epistemológicas daí resultantes serão objeto de discussão em itens posteriores.

O indutivista ingênuo é aquele que, dentre outras falhas conceituais e/ou de raciocínio, consegue provar "cientificamente", por exemplo, a inexistência de Deus, pelo simples fato de Deus não se manifestar a ele; tendo em vista que ele não possui uma regra para delimitar a ciência que não seja o princípio da causalidade --não há efeito sem causa-- ele tenta inverter o princípio ¾que no caso ficaria: não há causa sem efeito¾ e, apelando para o argumento indutivista, consegue, por métodos "científicos" chegar a conclusões não científicas ¾no caso, teológicas. Mais comum, no entanto, é o erro, agora não tão ingênuo, cometido por alguns indutivistas que conseguem provar "cientificamente" que "todas as maçãs são vermelhas", prova esta "válida" somente até o dia em que eles se depararem com maçãs verdes. Neste caso, a falha decorre da crença num método repleto de incoerências internas.

5. O argumento dedutivista

O argumento dedutivista, ainda que não isento de críticas, representou, sem dúvida alguma, uma evolução, no sentido em que propiciou uma metodologia científica dotada de coerência interna. A esse respeito, é dito, com freqüência, que o raciocínio dedutivo constitui o argumento da lógica.

A fim de padronizar comparações, apresentarei o argumento dedutivista como apoiado no seguinte princípio: Se em dadas condições, um determinado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, qualquer afirmação decorrente desta premissa, para que seja hipótese, deverá ser passível de verificação observacional. A figura 3 ilustra a proposição deste argumento.



Figura 3 - O argumento dedutivista

É importante observar que nem toda a afirmação "deduzida" será uma hipótese, motivo pelo qual não utilizamos o argumento lógico se, e somente se, ao enunciarmos o princípio [16]. Em particular, é de se ressaltar a opinião de Severino (1994) a respeito:

"É preciso não confundir hipótese com pressuposto, com evidência prévia. Hipótese é o que se pretende demonstrar e não o que já se tem demonstrado." [17]

A lógica dedutiva, ao caminhar do geral para o particular, nos garante a formulação de hipóteses; e hipótese "comprovada" através de uma observação controlada (teste e/ou experiência) nos permite suspeitar, através de um raciocínio indutivo (do singular para o geral), sua condição de lei. Observem o cuidado na colocação das palavras: Eu disse nos permite suspeitar, e não nos permite garantir. Por que esse cuidado? A experimentação não nos garante verdades? A esse respeito, Popper assim se referiu:

"Não há um método para determinar se uma hipótese é ‘provável’, ou provavelmente verdadeira." [18]

É interessante notar que algumas limitações inerentes ao indutivismo, e que propiciam o aparecimento de conclusões ingênuas, são aqui substituídas por uma impossibilidade. Sob esse aspecto, o dedutivismo não solucionou o problema, mas, simplesmente, reduziu a possibilidade de que se cometessem determinados raciocínios ingênuos.

Rigorosamente falando, o problema não é tão insolúvel assim. Será insolúvel tão-somente para aqueles que julgam estar, cientificamente, buscando por verdades absolutas. A verdade científica, e só o leigo talvez não saiba, é uma verdade provisória, tomada por empréstimo da natureza e da forma como ela se nos aparenta ser. As verdades científicas de hoje serão, quando não negadas, lapidadas e reformuladas amanhã. Se chegaremos ou não, por métodos científicos, à verdade absoluta, é um questionamento que a ciência não está aparelhada para responder. E talvez nunca esteja, o que não nos impede de que continuemos procurando pela verdade.

Popper foi mais além, demonstrando ser impossível até mesmo probabilizar uma afirmação comprovada por um raciocínio que siga a metodologia dedutiva (incluindo, e é aí que reside o problema principal do método, a indução -- vide lado direito da figura 3). A esse respeito, Popper propõe a substituição do termo probabilizar por corroborar: Uma hipótese seria tanto mais corroborável quanto mais propiciasse verificações experimentais; e teria sido tanto mais corroborada, e não há como se atribuir números probabilísticos a esse efeito, quanto mais resistisse a essas verificações. Siegel (1977, tradução) adota, provavelmente com o mesmo objetivo, a expressão grau de aceitabilidade.

"Efetuamos pesquisas a fim de determinar o grau de aceitabilidade de hipóteses deduzidas de nossas teorias." [19]

Esta impossibilidade em garantir um acerto preocupou bastante Popper, e, certamente, foi um dos motivos que o levou a expandir o argumento dedutivista através da proposição do falsificacionismo, a ser apresentado no item 7.

Independentemente das dificuldades apontadas neste e nos itens precedentes, a verdade é que a ciência progride, e este progresso é guiado por homens que conhecem o terreno por onde pisam. E conquanto todos saibam da não existência, em ciência, de verdades absolutas, da impossibilidade de se chegar a uma solução definitiva para os problemas científicos, e da não existência de provas observacionais irrefutáveis, quase todos [20] entendem e concordam com a afirmação de GIL (1994) expressa a seguir:

"A pesquisa científica inicia-se sempre com a colocação de um problema solucionável. O passo seguinte consiste em oferecer uma solução possível através de uma proposição, ou seja, de uma expressão suscetível de ser declarada verdadeira ou falsa. A esta proposição dá-se o nome de hipótese. Assim, a hipótese é a proposição testável que pode vir a ser a solução do problema." [21]

6. O que é teoria?

É importante salientar que a finalidade primordial da ciência não é formular hipóteses, e sim, sistematizar teorias; e que teoria não é pura e simplesmente uma coletânea de hipóteses: Teoria é um conjunto de hipóteses coerentemente interligadas, tendo por finalidade explicar, elucidar, interpretar ou unificar um dado domínio do conhecimento [22]. Por que, então, os livros de metodologia insistem em justificar os métodos através de hipóteses únicas e, via de regra, desinteressantes, tais como: As maçãs são vermelhas, os cisnes são brancos, etc.?

A verdade é que nem sempre é fácil encontrar teorias ao mesmo tempo simples e de amplo espectro, ou seja, que possam ser entendidas por leitores das várias áreas do conhecimento. Por outro lado, os argumentos que corroboram ou derrubam teorias são, em princípio, idênticos aos que corroboram ou derrubam hipóteses ¾poderíamos também dizer que uma hipótese é, ou simula ser, uma teoria, cujo conjunto de hipóteses é unitário. Em geral, a dificuldade inerente ao grau de complexidade de uma teoria, pode ser superada, desde que o cientista conheça a fundo esta teoria, cujo grau de aceitabilidade pretende testar, e domine a lógica envolvida em situações similares, porém simples, como aquelas que aparecem nos compêndios sobre o assunto.

A ênfase, dada pelos textos de metodologia científica, a métodos relacionados a testes de hipóteses, contrasta com a quase ausência de referências a métodos relativos à prática da teorização. Existem exceções a esta regra, e eu não poderia deixar de citar [23] os livros de Bunge [24] e de Lacey [25], indicados especialmente para os iniciantes da área de exatas. Embora não especificamente dirigido a esta temática, há que se destacar também o livro de Bohm e Peat [26] e que merece ser lido, posto que focaliza a essência da problemática aqui apontada; neste caso, e por este motivo, é indicado aos iniciantes de todas as áreas.

A prática da teorização, com raríssimas exceções, não se aprende na escola. Grandes teorizadores, por terem aprendido a utilizar uma técnica não encontrada nos livros tradicionais, e que nem mesmo é ensinada na maioria dos regimes de iniciação científica, chegaram a ser confundidos com gênios. É bem possível que estes gênios tenham adquirido esta práxis cultuando algum resquício da filosofia que a sociedade moderna não conseguiu despedaçar.

A lacuna, acima apontada, fomenta a ingenuidade ou, até mesmo, o charlatanismo, multiplicando. sobremaneira, o número dos que, sem estarem devidamente preparados para teorizar ¾uma atividade que não é elementar¾ ainda assim teorizam, e teorizam mal ¾fato este que chega a incomodar cientistas de respeito que ocupam postos importantes nas universidades [27]. Por outro lado, e em decorrência disto, permite que se condene, à marginalidade científica, e por períodos variáveis de tempo, todos aqueles que, certos ou errados, pretendem evoluir seriamente no sentido de atender à finalidade última da ciência: a edificação de teorias representacionais.

Que métodos estes homens seguiram que não a paixão, a devoção, a persistência e a crença num espírito universal? ¾Espírito este que, segundo alguns admitem, não está a se divertir com nossos erros e "acertos", o que foi sintetizado, pelo maior dos gênios do século XX, nas seguintes palavras: Deus não joga dados. A resposta nos é dada pelo próprio autor desta afirmação:

"O alvo de construir uma teoria de campo eletromagnético da matéria permanece inatingível por ora, embora em princípio nenhuma objeção possa ser levantada contra a possibilidade de vir a se alcançar tal objetivo. O que reteve qualquer tentativa posterior nessa direção foi a falta de qualquer método sistemático que levasse a uma solução" [28]

Será que não existem métodos ou regras a serem adotados nesta práxis? E por falar nisso, a prática da teorização não seria uma "teorexis"? [29] Será que teorizar em ciência é uma atividade puramente filosófica? Não existe uma metodologia científica a orientar aqueles que se preocupam em decifrar os segredos que estão por trás dos fenômenos que se adaptam à regra científica fundamental? Caso exista um método a ser sistematizado: Seria ele diferente do método científico? O que é o método científico?

Tentarei, dentro do possível, e da finalidade a que me propus ao conceber esta série de artigos, responder, oportunamente, e/ou orientar o leitor, se houver como, no que diz respeito aos questionamentos aqui assinalados. De qualquer forma, mais detalhes sobre teoria e/ou teorização serão apresentados no tópico IV-b: A prática da teorização (em preparo).

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Referências:

[13] CHALMERS, A. F., 1976, op. cit. (Voltar pelo browser), pp. 23-63. Voltar

[14] Idem, (Voltar pelo browser) p. 28. Voltar

[15] Esta versão é uma adaptação do princípio da indução como enunciado por CHALMERS (1976), op. cit. (Voltar pelo browser): "Se um grande número de As foi observado sob uma ampla variedade de condições, e se todos esses As observados possuíam, sem exceção, a propriedade B, então todos os As possuem a propriedade B." Aparentes contradições, que o iniciante possa descobrir ao comparar os dois enunciados, não comprometem o raciocínio que se segue, razão pela qual admitirei a equivalência sem justificá-la. Voltar

[16] Neste caso, o princípio ficaria: Se em dadas condições, um deteminado fenômeno, sempre que pesquisado, se repetiu, qualquer afirmação decorrente desta premissa, será hipótese se e somente se for passível de verificação observacional. O primeiro se torna a afirmação inconsistente. Voltar

[17] SEVERINO, J. S., 1994, Metodologia do trabalho científico, Cortez Editora, São Paulo. Voltar

[18] POPPER, K. R., 1956, op. cit. (Voltar pelo browser) Voltar

[19] SIEGEL, S., 1977, Estatística não-paramétrica, Ed. McGraw-Hill do Brasil, Ltda, São Paulo, p. 6. Voltar

[20] É possível que alguns, dentre os indutivistas, não concordem com alguns dos termos da afirmação, por motivos que podem ser suspeitados, tendo em vista o apresentado neste e no item anterior. Voltar

[21] GIL, A. C., 1994, Como elaborar projetos de pesquisas, Editora Atlas S. A., São Paulo, p. 35. [Os grifos são meus.] Voltar

[22] Em FERREIRA, A. B. H., 1986, op. cit. (Voltar pelo browser), encontramos uma definição mais geral, a satisfazer também o argumento indutivista: "Teoria é um conjunto de conhecimentos não ingênuos que apresentam graus diversos de sistematização e credibilidade, e que se propõem a explicar, elucidar, interpretar ou unificar um dado domínio de fenômenos ou de acontecimentos que se oferecem à atividade prática." Voltar

[23] Os três livros, citados a seguir, não são os únicos nos gêneros assinalados, a despeito da disparidade apontada. Ao tempo em que registro, com estes exemplos, a exceção à regra, presto também uma homenagem a autores que, ao serem por mim lidos, transmutaram em dúvidas muitas das respostas a questões fundamentais, e que eu, pretensiosamente, julgava possuir. Voltar

[24] BUNGE, M., Teoria e realidade, Ed. Perspectiva (tradução, 1994), São Paulo. Voltar

[25] LACEY, H.M., 1972, A linguagem do espaço e do tempo, Ed. Perspectiva S.A. Voltar

[26] BOHM, D., e PEAT, F. D.: Ciência, ordem e criatividade, Gradiva Publicações Ltda (tradução, 1989), Lisboa. Voltar

[27] A esse respeito vale a pena ler Científicos Chiflados, capítulo XIV do livro: BERNSTEIN, J., 1988, Observación de la Ciencia, Ed. Fondo de Cultura Económica, México. Voltar

[28] EINSTEIN, A., Física e realidade, in Albert Einstein, Pensamento político e últimas conclusões (1983, tradução), Edit. Brasiliense S. A., São Paulo. [O grifo é meu.] Voltar

[29] Este termo eu utilizei pela primeira vez no artigo: MESQUITA F.° , A, 1983, Ciência empírica: uma arma ou uma dádiva?, Faculdade (Revista do IAMC), n.° 6, p. 28-43, agosto/83. Voltar































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